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Ressurreição
por Diones Machado Vieira, publicado em 27/11/2008

Dedicado ao meu pai (Diones Vieira), a minha mãe (Edileuza), ao meu irmão (Rangel), a minha família, aos meus amigos e especialmente a Graziene, cuja amizade, carinho e sorriso foram fundamentais para a realização deste.

    

Seguindo as palavras daquele cara que disse que na natureza nada se cria tudo se transforma, me vi sendo transformado em um grão de areia a ser levado por um vento sem direção, frio, impiedoso, calado. Sim, calado, sem som, mudo. Havia medo, pavor, angustia em minha estrutura sílica. Havia dor. Eu não sabia que areia sentia dor, alias foi nessa minha transmutação em homem-areia, ou melhor, homem-grão-de-areia que me dei conta de que pouca coisa sabia, e ate hoje pouca coisa sei. Não tanto como antes, mas ainda assim pouco.

Por que, onde, quando, como aconteceu toda essa evaporação da realidade substantiva de um ser cuja existência tinha como único e exclusivo objetivo viver, continuar existindo, sobreviver?. Bem, não sei ao certo, mas tenho pistas. No enunciado do cara que citei logo no começo, existe uma parte entre nada se cria e tudo se transforma que é: nada se perde. E é ai que o sentido, o fazer sentido, se alia à lógica e geram juntas luz suficiente para iluminar o caminho e me dar entendimento sobre tais questões que invadem a minha consciência e me fazem, no entardecer da noite, olhar para o Sol e desejar não estar acordado.

Certo dia eu acordei assim meio que abre o olho esquerdo e fecha o direito, abre o direito e fecha o esquerdo, abre os dois diante do espelho para poder se enxergar. Eis que não me enxergo, não havia imagem em meu espelho, ou melhor, a minha imagem não estava lá. Fiquei ali parado, quieto por horas e horas que não consegui contar, até perceber que estava perdido. Sim, perdido em meus sonhos, em minhas idéias, em meus ideais, em meus pensamentos. Eu, perdido em um mundo que aparentemente fora criado por mim e ao qual, mantendo as mesmas aparências, controlava.

Perder, infeliz palavra que fora condenada por Lavoisier, o tal cara do enunciado. Palavra esta que julgava traduzir perfeitamente, naquele momento, a minha realidade. Mero engano, conclusão errônea e precipitada sustentada no sentimentalismo exarcebado do medo do novo, das mudanças. Pois o fato de deixar o estado de ser homem para o estado ser-grão-de-areia, uma partícula tão minúscula e insignificante e com agravante de estar sendo conduzido por um vento desnorteado, desorientado, dessulizado, desoestizado, deslestizado, levou-me a tirar tal conclusão acerca do que me ocorria naquele momento.

Eu, átomo petrificado, amedrontado, atemorizado, inerte em si próprio, inerte em uma espécie de tornado infinito e de velocidade constante, que se assemelha a da luz pela capacidade de visitar diversos lugares em questão de milésimos de segundos. Mas não era vento? Você me pergunta. Sim, a principio era apenas um simples vento, que ate hoje não sei de onde veio, mas que se transformou em um turbilhão enorme após o seu segundo sopro gelado. Pelos lugares que passei vi bastante sofrimento, destruição, lágrimas de sangue que formavam grandiosos rios aos quais era possível ver, boiando em seus leitos vermelhos, partes de diversos corações dilacerados, cujos donos padeceram ate a morte de solidão.

Essa minha carruagem espiralada, com o seu ímpeto e sobrepujança de um deus grego, levara-me até as ruínas de um inferno, muito estranho por sinal.  Contrariando as minha expectativas lá não era quente e também não era frio, a temperatura era muito agradável, não haviam demônios mas apenas pessoas. Sim! Pessoas! E as suas formas mesquinha de serem. Os seus ódios, as suas iras, as sua invejas, as suas ganâncias, os seus individualismos e veias competitivas compulsivas. Como eu sabia que lá era o inferno se não haviam demônios e não era quente? Simples, logo na entrada havia uma placa dizendo: Bem vindo ao Inferno! Quem entra não quer sair quem sai não quer entrar. Nas costas dessa mesma placa estava escrito, pixado em grafite vermelho: Terra, quem pediu para estar aqui!? .

Em outra ocasião tive a oportunidade de ir a um lugar que parecia o céu por definição. Mas lá não havia Deus, nem anjos, só pessoas. Estas, ao contrario das outras, eram caridosas, altruístas, tinham em seus peitos ao invés do coração, a palavra amor pulsando incessantemente. Mas estas mesmas tinham em seus olhos o olhar imperfeito de todo ser humano que era denunciado pelas suas vísceras mais internas. Lá com certeza não era o céu. Não havia placa. Era um lugar bom, o único que encontrei nessa louca jornada. Quis ficar ali, como um descanso eterno para aquilo que me transformei. Não pude, o meu guia era forte, autoritário e não me deixou ficar.

Estive em vários desertos. Os mais sombrios eram aqueles aos quais eu me encontrava em alto-mar. Onde o único ser, ou coisa que se parecia comigo era o meu reflexo distorcido nas águas. O silêncio sempre reinava soberano. O meu tornado era silencioso, como o vento que o gerara. Não havia paz, como se sugere, mas sim guerra, desordem. O silêncio, da forma que fora posto, inspirava, instigava o grito. A introspecção, a aquietação do espírito para se elevar a um estado superior tornara-se impossível. Se eu, como grão-de-areia, tinha espírito? Não sei! Mas tinha consciência plena de que eu existia e estava vivendo todas estas coisas.

O tempo passava e nada mais me surpreendia. O novo tornava-se velho e o velho em uma espécie de conhecimento adquirido e tedioso. O comodismo, o conformismo, colocaram-me em um invólucro e me chamaram de seu. Pequenino, frágil, indefeso e sem forças para libertar-me desse ente que me governava, decidi pôr-me em esquecimento. Quando o ultimo fio da esperança fora quebrado entrei em algum tipo de transe e comecei a sonhar, delirar, ou coisa parecida. Cheguei a um lugar onde todos eram iguais a mim, homens-grãos-de-areia. O Sol era muito quente. Haviam ventos que juntavam e separavam a gente a todo instante e em todas as direções.

Aquele estranho lugar era como um paraíso para os que tinham a minha forma. Mas eu não me sentia feliz ali. Em um dado momento, um daqueles ventos estúpidos teve a idéia de me elevar até o Sol. Foi ai que senti, de repente, uma brisa refrescante envolver toda a minha estrutura. Sai do transe. Percebi que aquele que me conduzia já havia se extinguido. Conclui que me encontrava novamente perdido. Eu não sabia por que, como, tudo simplesmente terminara. Aquela brisa ficava mais forte e mais tenra. Me vi em um novo processo de transformação. Nada estava muito claro para mim, as imagens eram confusas, e, a principio, sem cor alguma. Voltei a ser homem-não-grão-de-areia.

Dessa vez eu pensei que a morte veio reclamar o que por direito é sua: a minha alma. O que me trouxe a seguinte pergunta: A minha alma é parte integrante da natureza? Pois, se for ela se enquadra no que Lavoisier disse. Se não for, existem apenas duas possibilidades: ou ela passará para um outro plano e será eternamente a mesma ou será devorada pela morte sendo extinta de uma vez por todas do universo. Naquele instante tive medo da morte, naquele instante o delicioso perfume que ocupava todo o ambiente ao qual me encontrava foi o que me fez inferir a tão assustadora e negra morte.  

O que de fato acontecia era que as imagens confusas que se encontravam sobrepostas e que davam forma ao tempo-espaço ao qual me encontravam iam uma após a outra se mostrando e desaparecendo. Uma força incrível e acolhedora os impelia a tal processo. Vi na individualidade dessas imagens que todos os meus medos não se justificavam e me pus a chorar, uma certa alegria ia invadindo aos poucos o meu ser. Quando a penúltima imagem se desfizera senti que não haviam mais correntes a prender os meus pés, que não haviam mais sacos pesados para serem carregados em minhas costas. Mais leve. Mais livre.

A ultima imagem trazia consigo um sorriso brilhoso, alegre, festivo. O perfume que tomara o meu ambiente. E que não vinha da superfície da sua pele, do seu corpo, mas do interior da mesma. A união de raras essências para formar uma rara fragrância que apascentara, tranquilizara, levara paz ao meu ser. Com ela também a brisa refrescante e acolhedora que me envolvera harmoniosamente. Sim, a fonte daquela brisa que me trouxera de volta a forma homem-não-grão-de-areia era fruto dela, e centrava-se pura e simplesmente na sua presença. Quanto mais próximo, menos apenas imagem, menos miragem se parecia e mais concreto se tornava. Eu, totalmente homem-não-grão-de-areia, sorria e não sentia mais medo. Quando a poucos centímetros de mim, a não mais simplesmente imagem, olhou nos meus olhos, sempre sorrindo, e estendeu-me a mão. Olhei nos seus olhos, estendi a minha mão e perguntei o seu nome. Ele, com muita graça, simplicidade e com uma face que ninguém já mais pintara e nem eu jamais poderia imaginá-lo dessa forma, respondeu-me: Jesus.

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